Vai, triste canção
Sai do meu peito e semeia emoção
Que chora dentro do meu coração

Começa o disco e ouvimos uns sussurros da cantora, talvez uns exercícios vocais para a troca de “galhardetes” em verso que a espera. Depois, conta-se até três e lá aparecem o baixo e o violão, segue-se o piano e, pouco depois, as vozes entrelaçadas de Elis e Tom na melhor e mais divertida versão do clássico Águas de Março – e em que nada sentimos a suposta tensão que estava no ar durante as gravações. Se mais nada houvesse de notável neste disco que reúne dois dos gigantes da música brasileira, já a primeira faixa bastaria para o inscrever na História.

Mas é óbvio que Elis & Tom tem mais, muito mais. É também importante assinalar que aqui se parecem fixar outras variações de clássicos de Jobim como as “definitivas”. Por muito que goste de tantas outras releituras de Corcovado (como o magnífico take de Frank Sinatra à canção, bem como a de Astrud e João Gilberto), a voz de Elis e o arranjo tornam esta versão na minha perdileta. Assim como acontece com Retrato em Branco e Preto, que parece ter sido escrita para apenas pertencer a ela, e Modinha – dois minutos belíssimos e de uma intensidade emocional que me levam quase às lágrimas, de cada vez que revisito este disco regularmente.

Há uns dias mostrei essa mesma faixa a alguém que, logo depois, salientou as capacidades dramáticas da voz de Elis. “Ela sente mesmo o que está a dizer“, disse. Sim, e além de sentir, eu acrescentaria que ela parece vive as palavras de Jobim. Elis não só canta muito bem, como pega nas letras das canções para as tornar muito suas. E é esse o grande poder deste álbum. Por mais poéticos e sensoriais que sejam os versos do autor, Elis consegue torná-los em coisas “palpáveis”, tão reais como qualquer amor ou tragédia da vida mundana.

Tive a sorte de ouvir muita música diferente ao longo da minha infância, quer fosse por causa de CDs, de rádios sintonizadas em longas viagens e com música de todas as eras do século passado (desde as entretanto extintas Star FM e Rádio Clube Português a outras como a RFM, muito antes dessa estação ter decidido ser mega jovem e tratar o ouvinte por “tu”, ou a M80 quando passava realmente canções dos anos 70, 80 e 90), ou das mais ingénuas e acidentais descobertas feitas graças à minha curiosidade, potenciada pelos meandros da internet. Felizmente que não me restringi ao que era moda “no meu tempo” (e tenho tanto medo da “nostalgia dos anos 2000” que, daqui a poucos anos, será uma moda quando a malta da minha geração passar à fase dos 30). Todos esses acasos moldaram o meu estranhamente diversificado gosto musical. E se guardo muitas memórias musicais que, de vez em quando, são ressuscitadas, há outras cuja importância foi crescendo ao longo do tempo.

E Elis & Tom é um daqueles discos que me lembro de ouvir em casa, ou no carro, ou noutras circunstâncias, ao longo de mais de 15 anos, num CD comprado pelos meus pais que sempre gostei de ver na pequena colecção de música que temos em casa. As canções, essas, foram sendo melhor apreciadas ao longo dos anos, como acontece com tudo o que é demasiado belo para se apreciar somente numa fase da nossa vida. Além de que, em miúdos, nunca damos o mesmo valor às coisas boas. Passado todo este tempo, e por muito mais música que vá descobrindo (embora nunca seja mais do que um mero leigo na matéria que gostaria de ter jeito para tocar algum instrumento), é ainda com gosto que ouço o disco, e reencontro esta magnífica reunião de génios tal como se estivesse a tomar um café com eles. Ou como se fosse a primeira vez.

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