O podcast regressa em breve às lides da web – mas antes disso, ao escavar a fundo nos arquivos do meu defunto blog “Companhia das Amêndoas”, encontrei este texto praticamente teclado a 30 de Dezembro de 2017 mas que, por qualquer razão, decidi não publicar na altura. Aqui fica então. Não revi o dito filme desde esta data, mas lembro-me de ter ficado mais agradado com ele do que seria talvez “suposto” – pelo menos perante o consenso da crítica e do público. Provavelmente mudaria de opinião se revisitasse o filme, mas por vezes é bom olhar para a primeira impressão que algo nos dá, e depois ver as diferenças com o que pensaríamos hoje. Só fiz alguns cortes de verborreia desnecessária e ajustes de linguagem, temporalidade e ortografia, que a primeira escrita de qualquer coisa nunca permite que se faça de uma forma tão aprofundada.

Suburbicon parece um filme dos irmãos Coen que tem a assinatura de George Clooney. Não estivesse omnipresente a intenção do actor/realizador de recriar, com primor, o glamour nostálgico de outro tempo (neste caso os fofinhos, e subtilmente sombrios, anos da década de 50), que já antes encontrámos no essencial Good Night, and Good Luck, e não associaríamos aqui rapidamente o seu lado de realizador. Apesar de não ser totalmente isso, Clooney teve a sua persona cineástica evidentemente coenizada no processo (ou foi algo que foi surgindo nas colaborações com os irmãos no passado), e vale ainda a pena dizer, sobre isto, que Suburbicon tem mais de Coen do que o penúltimo filme efectivamente assinado por eles (o divertimento esquecível Hail Caesar!).

O primeiro guião foi escrito há pouco mais de três décadas, pouco tempo depois dos irmãos terem lançado a sua primeira longa-metragem (o extraordinário Blood Simple). As revisões ao texto poderão ter dado algumas limadelas às intenções iniciais já que, como nos indicam os créditos, a autoria é agora repartida com mais duas pessoas (Clooney incluído). E nesta sátira misturada com thriller misturado com comentário social está cá tudo o que se associa àqueles filmes sangrentos e bizarros dos Coen, que variam em termos de humor e de utilização de alguns mecanismos narrativos. Temos o toque de fábula grotesca, as retorcidas demonstrações da ilusão de uma sociedade ideal proporcionada pelo “american way of life”, como também a insistência nos tiques nervosos mais insólitos de certas personagens, ou a forma como certas coincidências mais ou menos absurdas (e simbólicas) vão influenciar decisivamente o rumo dos acontecimentos.

É claro que, tendo isto em conta, serão notórias as semelhanças de Suburbicon, mas não acredito que se possa considerar esta história como uma “versão menor” dessas outras, mais celebradas e/ou oscarizadas. E tal como o filme sobre Edward Murrow ou o mais recente The Ides of March, Clooney lançou a obra na altura certa, aproveitando um contexto de fervilhantes altercações sociais nos EUA para filmar uma dissecação dos podres que escondem a “magnificência” do que é ser americano, que tanto faz sentido na atmosfera nos anos 50 do século passado como hoje.

O problema é que, acredito, Suburbicon foi vítima das circunstâncias: não tivessem estreado os Get Outs desta vida em 2017, e provavelmente teria sido recebido de uma maneira diferente. Muitas opiniões comprovam que grande parte do negativismo que condenou a produção ao total fracasso comercial nos states se deve não ao conteúdo em si, mas à actualidade, ou então, a uma estranha aversão da cinefilia americana à “mistura de géneros”. Por vezes, a percepção do cinema nesse país enclausura-se em demasia numa série de “códigos de conduta” de que um guião deve ser assim ou assado e etc.

Não quero com isto dizer que Suburbicon foi altamente aclamado na Europa, mas talvez consigamos compreender melhor como a mistura de temáticas, de regras de géneros distintos e das constantes reviravoltas de Suburbicon dizem muito mais sobre a actualidade do que muitos dos “filmes socialmente relevantes” que marcam presença em muitas listas de melhores do ano.

Penso que uma das maiores virtudes de Suburbicon é mesmo o facto de não ter um género definido, indo até mais além nesse lado de “salada de frutas” que os filmes realizados pelos Coen. E há outra coisa que faz com que este não seja um trabalho 100% Coen: muitos dos momentos da história que associamos rapidamente a uma certa maneira de filmar, ou de montar, típica desses realizadores, são subvertidos. Tanto que aquilo que nos aproxima dos irmãos faz-nos também distanciar e voltar a olhar, com admiração (ou desprezo, dependendo do gosto) para o que nos é apresentado.

Clooney dá a volta à tensão, ou ao exagero, ou à exposição do ridículo desta narrativa que mistura racismo com família e outros problemas sociais com um certo toque seu, não tão “amestrado” para agradar aos Coen como nos querem fazer entender. Tanto que, a gostar-se ou não do que o realizador fez ao argumento original, conseguiu criar um filme que provoca uma certa estranheza agradável, e uma visita aos meandros das perversidades do espírito americano filmada de um outro ângulo que mistura uma planificação de perfeição a la “cinema clássico” com um desenrolar de acontecimentos cada vez mais obscuros. Vão-se formando umas quantas camadas para divertir o espectador até ao fim do filme. No fim, fica isso mesmo: um divertimento sobre coisas sérias que vale mais do que se tem apregoado.

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